Muitos vêem o Natal como renascimento e preservam toda aquela antiga tradição. Eu, particularmente, nunca passei longe da minha família mas conforme o tempo vai passando vejo que as velhas tradições vão se perdendo. No início haviam os preparativos, presentes na árvore, pisca-pisca na varanda, amigo-oculto e ceávamos exatamente a meia-noite. Esse ano houveram os preparativos, a ceia e as onze horas já estávamos todos na cama.
Esperava um Natal bem mais animado, quase entreguei os pontos mas no final das contas me recusei a fazer isso e terminei a noite assim: uma boa música e uma ice gelada.
Nada mais "deprê" para uma noite de festa, mas o que seria do Natal sem aquela tão tradicional melancolia?
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
O Internato
Desde que tive que fazer um trabalho sobre um texto da Lya Luft decidi me aprofundar um pouco mais em sua obra. Há alguns minutos terminei de ler O Internato, e como alguns outros que li suscita uma reflexão, que embora clichê não deve ser esquecida: Devemos cultivar o bem hoje, para que possamos colhe-lo amanhã.
O texto fala de um menino que desde muito pequeno sofria e via seu pai agredir sua mãe e suas irmãs. Aos onze anos foi mandado para um internato após tentar defender sua mãe das agressões, partindo para cima do seu pai. Desde então passou a colecionar mágoas, que foram se transformando em ódio. Os anos passaram, sua mãe falecera, agora ele era um homem muito bom e bem sucedido.
Ele jamais perdoara seu pai. Quando encontrava com suas irmãs, que já tinham marido e filhos, essa era um assunto terminantemente proibido.
Um dia, ele recebeu uma ligação e percebeu que não tinha escolha, teria de cuidar de seu pai, que estava enlouquecendo e vivia em condições desumanas. Ele então foi em seu socorro, e após alguns dias foi a vez da vingança pela qual ele esperara a vida inteira. Seu pai finalmente saberia o que era viver em um Internato.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
"É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais!"
Sábado passado estive na exposição Viva Elis no CCBB. Sem dúvida era uma exposição que precisava ser conferida, afinal, o talento dela era incomparável no quesito voz. O dia em que fui a exposição, coincidiu com o falecimento da Hebe, que apesar de estar muito longe de ser jovem, me leva diretamente a um assunto bem complexo: a morte, a hora de partir.
A exposição é magnífica e eu realmente gostaria de ter ido antes. Saí de lá com uma sensação estranha, pesada. Pensei na Elis, no Renato Russo,no Cazuza, na Karen Carpenter, Cássia Eller, Kurt Cobain, Amy Winehouse e em tantos outros que se foram cedo demais. Todos com algum tipo de problema, álcool, drogas, distúrbio alimentar,depressão... agravados pela fama ou não, eram pessoas tão talentosas que não cabiam em si. Com um tipo de inconformismo que era facilmente transformado em poesia, em ondas sonoras inebriantes ou em ambos. Eles contagiaram o público com a sua intensidade, tudo o que faziam, era com a alma e talvez por isso tenham partido tão precocemente;
Sempre que penso nessas pessoas imagino como seriam suas carreiras hoje em dia. Será que a qualidade seria mantida? Seriam lendas vivas como Chico Buarque e Caetano? Nada me faz pensar o contrário.
Aos fãs que ficaram, só nos resta a lembrança e contribuir para que o som deles, tão raros, chegue até as próximas gerações.
"Enquanto houver quem se lembre de nós, quem tenha saudades, quem relembre momentos, ações, quem, apesar de ausentes, nos sinta, nos veja, nos fale na linguagem mais arcaica do mundo, a do pensamento, então não morremos, permanecemos vivos num outro patamar: o da memória viva das pessoas que connosco vivenciaram."
domingo, 30 de setembro de 2012
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
15/04/1962
Vinícius de Moraes
A poesia acima foi extraída do livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.
Coisas da Vida
"Há quem diga que o tempo não existe, que somos nós que o inventamos e tentamos controlá-lo com nossos relógios e calendários. Nem ousarei discutir essa questão filosófica, existencial e cabeluda. Se o tempo não passa, eu passo. E não é só o espelho que me dá certeza disso.
O tempo interfere no meu olhar. Lembro do colégio em que estudei durante mais de uma década, meu primeiro contato com o mundo fora da minha casa. O pátio não era grade - era colossal. Uma espécie de superfície lunar sem horizontes à vista, assim eu o percebia aos sete anos de idade. As escadas levavam ao céu, eu poderia jurar que elas atravessavam os telhados. Os corredores eram passarelas infinitas, as janelas pareciam enormes portões de vidro, eu me sentia na terra dos gigantes. Volto, depois de muitos anos, para visitá-lo e descubro que ele continua sendo um colégio grande, mas nem o pátio, nem os corredores, nem as escadas, nada tem o tamanho que parecia ter antes. O tempo ajustou minhas retinas e deu proporção às minhas ilusões.
A interferência do tempo atinge minhas emoções também. Houve uma época em que eu temia certo tipo de gente, aqueles que estavam sempre dispostos a apontar minhas fraquezas. Hoje revejo essas pessoas, e a sensação que me causam não é nenhum pouco desafiadora. E mesmo os que amei já não me provocam perturbação alguma, apenas um carinho sereno. Me pergunto como é que se explica que sentimentos tão fortes como o medo, o amor ou a raiva se desintegrem. Alguém era grande no meu passado, fica pequeno no meu presente. O tempo, de novo, dando a devida proporção aos meus afetos e desafetos.
Talvez seja esta a prova da sua existência: o tempo altera o tamanho das coisas. Uma rua da infância, que exigia muitas pedaladas para ser percorrida, hoje é atravessada em poucos passos. Uma árvore, que para ser explorada exigia uma certa logística - ou pelo menos um “calço” de quem estivesse por perto e com as mãos livres-, hoje teria seus galhos alcançados num pulo. A gente vai crescendo e vê tudo do tamanho que é, sem a condescendência da fantasia.
E ainda nem mencionei as coisas que realmente foram reduzidas: apartamentos que parecem caixotes, carros compactos, conversas telegráficas, livros de bolso, pequenas salas de cinema, casamentos curtos. Todo aquele espaço da infância, em que cabia com folga nossa imaginação e inocência, precisa hoje se adaptar ao micro, ao mínimo, a uma vida funcional.
E cresci. Por dentro e por fora(e, reconheço, pros lados). Sou gente grande, como se diz por aí. E o mundo à minha volta, à nossa volta, virou aldeia, somos todos vizinhos, todos vivendo apertados, financeira e emocionalmente falando. Saudade de uma alegria descomunal, de uma esperança gigantesca, de uma confiança do tamanho do futuro - quando o futuro também era infinito à nossa frente."
Martha Medeiros em Coisas da Vida(L&PM Pocket)
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