É estranha essa necessidade que sinto de escrever. Sobretudo anteontem e ontem, quando o cansaço tentou me vencer por diversas vezes e não cedi. Deixei o que tinha para fazer e voltei para o meu caderninho.
Hoje foi diferente. Resisti a todos os impulsos que me levavam e ele e finalmente terminei de ler Ressurreição de Machado de Assis, que eu estava cozinhando a no mínimo duas semanas. Como todo livro, não achei de todo ruim, até consegui extrair uma parte ou outra, mas não sei se encaro Dom Casmurro nesse feriado, seria tortura demais até para quem gosta de ler.
"Duas faces tinha seu espírito, e conquanto formassem um só rosto, era, todavia, diversas entre si, uma natural e espontânea, outra calculada e sistemática. Ambas, porém, se mesclavam de modo que era difícil discriminá-las e defini-las. Naquele homem feito de sinceridade e afetação tudo de confundia e baralhava." (P.18)
" Os meus amores são todos semestrais; duram mais que as rosas, duram duas estações. Para o meu coração um ano é a eternidade. Não há ternura que vá além de seis meses; ao cabo desse tempo , o amor prepara as malas e deixa o coração como um viajante deixa o hotel; entra depois o aborrecimento - mau hóspede." (P.25)
"... viver não é obedecer às paixões, mas aborrecê-las ou sufocá-las. Os maricas, como tu, choram; os homens, esses ou não sentem ou abafam o que sentem." (P.42)
" - Meneses não conhece os outros, continuou Félix. Parece filho daquele astrólogo antigo que, estando a contemplar os astros, caiu dentro de um poço. Eu sou da opnião da velha, que apostrofou o astrólogo: "Se tu não vês o que está a teus pés, por que indagas do que está acima da tua cabeça?
- O astrólogo podia responder, observou a viúva, que os olhos foram feitos para contemplar os astros.
- Teria razão, minha senhora, se ele pudesse suprimir os poços. Mas que é a vida senão uma combinação de astros e poços, enlevos e precipícios? O melhor meio de escapar aos precipícios é fugir aos enlevos.
Lívia ficou pensativa alguns instantes.
- O pensamento é melancólico, disse ela; contudo, pode ser verdadeiro. Mas por que razão condenaremos a vida contemplativa dos que não conhecem a vida positiva? Os livros da imaginação... esses livros não são detestáveis, como o senhor disse; não os há detestáveis nem ótimos. Deus os dá conforme a ciência de cada um." (P.43)
"A que propósito interviria o coração neste episódio, que devia ser curto para ser belo, que não devia ter passado nem futuro, arroubos nem lágrimas?" (P.50)
"Decidam lá os doutores da escritura qual destes dois amores é melhor, se o que vem de golpe, se o que invade a passo lento o coração. Eu por mim, não sei decidir, ambos são amores, ambos têm suas energias."
(P.55)
"Cada qual sabe amar a seu modo; o modo pouco importa; o essencial é que saiba amar." (P.56)
"Há quem diga que o primeiro amor nasce apenas da necessidade de amar." (P.71)
"...havia entre ambos, como Féliz disseram um dia, certa conformidade de sentir e pensar, que de algum modo os vinculava." (P.79)
"O amor não é isso que o senhor diz; não nasce de uma circunstância fortuita, nem de uma longa intimidade, é uma harmonia entre duas naturezas, que se reconhecem e completam." (P.80)
" Uma lágrima - a última que lhe restava - foi a única expressão do seu imenso desespero." (P.87)
"Era sol posto, hora de melancolia; tudo ali em volta assumia a cor pardacenta e luminosa dos últimos instantes da tarde." (P.93)
"Que lhe importava a ele a melancolia da natureza, se tinha dentro da alma uma fonte de inefáveis alegrias?" (P.109)
"...mais vale sonhar com a felicidade que poderíamos ter do que chorar aquela que houvéssemos perdido." (P.127)

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