segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Aprender a Amar



"Quando era pequena, numa cidadezinha de Connecticut, os meus vizinhos prediletos eram um casal de cabelos brancos, Arthur e Lillian Webster. Os Webster criavam gado leiteiro e pautavam a vida por um conjunto inviolável de clássicos valores ianques. Eram modestos, frugais, generosos, trabalhadores, religiosos sem exagero e membros socialmente discretos da comunidade, e criaram os três filhos para serem bons cidadãos. Também eram de uma bondade enorme. O sr.Webster me chamava de "Cachinhos" e me deixava passar horas andando de bicicleta no seu estacionamento bem pavimentado. Quando eu era muito boazinha, às vezes a sra. Webster me deixava brincar com a sua coleção de antigos vidros de remédio.
Faz alguns anos que a sra.Webster faleceu. Alguns meses depois da sua morte, saí para jantar com o sr.Webster e passamos a falar da sua esposa. Quis saber como tinham se conhecido, como tinham se apaixonado - todo o início romântico da vida em comum dos dois. [...] Não consegui arrancar do sr.Webster nenhuma lembrança romântica da origem do seu casamento. Ele confessou que não conseguia nem se lembrar do momento exato em que conhecera Lillian. Ela estava sempre na cidade, pelo que ele recordava. Sem dúvida, não foi amor à primeira vista. Não houve nenhum momento de emoção, nenhuma fagulha de atração instantânea. Ele nunca se apaixonara por ela.
 - Então por que se casou com ela? - perguntei.
Como explicou com o seu típico jeito ianque, franco e objetivo, o sr.Webster se casou porque o irmão mandou que se casasse. Arthur logo assumiria a fazenda da família e, portanto, precisava de uma mulher. Não se pode administrar uma fazenda direito sem mulher, assim como não se pode administrar uma fazenda sem um trator. Foi uma mensagem nada sentimental, e Arthur sabia que a ordem do irmão era certa. Assim, o jovem sr.Webster zeloso e obediente, saiu pelo mundo para arranjar devidamente uma esposa. Ao ouvir a narrativa, ficamos com a sensação de que várias moças em vez de Lillian poderiam ter ocupado a vaga de "sra.Webster" e que, na época, isso não faria muita diferença para ninguém. Arthur simplesmente se decidiu pela loura que trabalhava no Serviço de Cursos de Extensão da universidade. Tinha a idade certa. Era simpática. Era saudável. Era boa. Servia.
Portanto, é claro que o casamento dos Webster não começou com um amor febril, pessoal e apaixonado[...]. Portanto, podemos então supor que essa união é "um casamento sem amor". Mas é preciso tomar cuidado ao fazer suposições assim. Disso eu sei bem, pelo menos nos caso dos Webster.
No fim da vida da sra.Webster, diagnosticaram a doença de Alzheimer. Durante quase uma década, essa mulher vigorosa definhou de tal maneira que vê-la era um sofrimento para todos na comunidade. O marido, aquele fazendeiro ianque pragmático, cuidou da mulher em casa durante todo o tempo em que ela levou para morrer. Ele lhe deu banho, a alimentou, abriu mão da liberdade para tomar conta dela e aprendeu a suportar as consequências pavorosas da sua decadência.. Continuou cuidando da mulher mesmo bem depois que ela já nem sabia quem ele era, e até bem depois que ela já nem sabia quem era ela mesma. Todo domingo, o sr.Webster vestia sua mulher com boas roupas, punha-a na cadeira de rodas e a levava ao culto, na mesma igreja em que tinham se casado quase sessenta anos antes. Fazia isso porque Lillian sempre amara aquela igreja, e ele sabia que ela apreciaria o gesto caso tivesse consciência dele. Arthur sentava-se no banco ao lado da esposa, domingo após domingo, segurando a mão dela enquanto ela se afastava aos poucos rumo ao esquecimento.
E se isso não é amor, alguém vai ter de se sentar comigo e explicar bem direitinho o que é amor na verdade."


Extraído de Comprometida - Uma História de Amor  de Elizabeth Gilbert

Lendo este trecho do livro fiquei pensando em quantos casamentos são assim. Em quantas pessoas se assujeitam a essa situação. E principalmente se eu conseguiria viver a vida inteira ao lado de uma pessoa pela qual só sinta afeto. Uma pessoa a qual eu respeite, mas não ame. Só de pensar nisso uma angústia se apossa de mim e me faz querer desaparecer.
O afeto não é amor. Será que ele supre a solidão?

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